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“Puns” do gado interferem na atmosfera e ampliam efeito estufa

Escrito por Tião Maia em .

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Gases liberados pelos bois no pasto ameaçam meio ambiente e solução é consorciar pastagens com árvores

Com o alerta de cientistas de que o boi criado no pasto é um dos principais causadores do efeito estufa e da consequente destruição da camada de ozônio, aquela mesma camada que protege a Terra dos efeitos desastrosos dos raios ultravioletas emitidos pelo Sol – causadores do aquecimento do planeta e do câncer de pele e outros males nos humanos – ambientalistas, governos e entidades não-governamentais, preocupados com o meio ambiente, começaram a se mobilizar, no mundo todo, em busca de alternativas que possam conciliar a criação de gado, inclusive com o aumento do rebanho, sem agredir tanto a natureza, através da flatulência (o popular peido ou “pum”) dos animais. Os gases intestinais dos animais liberados na atmosfera, de acordo com os cientistas, contêm o metano, uma das causas do efeito estufa.

Fazendeiros e técnicos começam a aplicar a experiência no Acre - Foto: Tião Maia

A meta da Secretaria de Estado de Agricultura e Pecuária (Seap), do governo do Acre, para os próximos anos é de aumento do rebanho do Acre na ordem de 3,5%. Isso daria um aumento de pelo menos 72 mil novos animais agregados anualmente a um rebanho estimado em quase 3 milhões de animais. Ou seja, além dos 3 milhões já existentes, o Acre “contribuiria” para a destruição da camada de ozônio e para o efeito estufa com 72 mil novos animais soltando gases na natureza a cada ano. “É preciso, portanto, que incorporemos tecnologias e criemos meios de compensação para aumentarmos nosso rebanho sem novos desmatamentos e sem essas agressões à natureza”, disse o secretário da Seap, José Carlos Reis, ao falar, abertamente, sobre os “puns” dos animais na natureza.

O assunto foi discutido a sério em Rio Branco, capital do Acre, na semana passada, durante a realização do Seminário de Avaliação do Programa ISA de Carbono, no salão de convenções do Hotel Best Western, envolvendo ambientalistas e autoridades dos governos estadual e federal, além de técnicos da agência de desenvolvimento alemã KFW, uma espécie de banco estatal que doa dinheiro a governos que desenvolvam projetos com a finalidade de estancar o desmatamento das florestas tropicais e outros programas de proteção ao meio ambiente. A vice-governadora Nazaré Araújo, representando o governador Tião Viana, participou do evento.

O Governo do Acre trabalha com o KFW desde 2013, do qual obteve, por meio de doação, pelo menos 25 milhões de euros, como prêmio por suas boas práticas em defesa do meio ambiente, revelou o diretor da Companhia de Desenvolvimento de Serviços Ambientais do Acre, o ambientalista Alberto Dandi Tavares. A companhia é uma empresa pública e privada cujo objetivo é orientar a aplicação de programas de desenvolvimento e para a proteção de meio ambiente, que permitam o desembolso dos recursos fornecidos pela KFW, entre os quais um novo tipo de pecuária que, mesmo em escala crescente, não ameace o meio ambiente, principalmente as florestas, com novos desmatamentos ou gases venenosos.

Entre os assuntos debatidos na semana passada, o desmate das florestas passou a ser quase uma preocupação secundária, já que o Acre vem dando provas, por iniciativas do governo e dos empresários do setor agrário, de que está trabalhando firme para não permitir novos desmatamentos das florestas. A flatulência dos animais, entre outros assuntos, foi debatida como algo sério e ameaçador, principalmente num Estado como o Acre, que tem um rebanho duas vezes maior que sua população, estimada em pouco mais de 800 mil habitantes.

Edvan Maciel, médico veterinário da Secretaria de Agricultura e Pecuária do Acre (Seap) - Foto: Tião Maia

Depois de 8 horas de pasto, animal passa outras 8 horas soltando gases

De acordo com os cientistas, como consequência das oito horas diárias em que rumina o capim do qual se alimentou em outras oito horas anteriores, o boi acaba por liberar, através da flatulência, boa parte do gás metano que vai para atmosfera para gerar o efeito estufa que tantos males vem causando à vida terrena. Como não há meios para impedir que o gado continue a se livrar de suas – digamos assim – incontinências intestinais, a saída, apontaram os debatedores, seria a intensificação de um programa que consorcie a criação de gado com a plantação de árvores capazes de “sequestrar” os gases liberados pelos animais com destino à atmosfera.

O programa, a propósito, já tem nome e começou a ser implantado no país, inclusive no Acre, onde pelo menos três grandes criadores de gado que buscam consorciar pastagens com Eucalipto – árvore da família das Mirtáceas, nativa da Oceania, com mais de 700 espécies, a maioria de origem australiana e que adapta-se praticamente à todas as condições climáticas. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) apoia a proposta com a ideia de que é possível mitigar a emissão de gases da pecuária através de projetos batizados de silvipastoris, que consiste no plantio consorciado de capim com árvores de Eucalipto.

Uma das autoridades no assunto no Acre é o pesquisador Tadário Kamel de Oliveira, da Embrapa, que tem doutorado em engenharia florestal pela Universidade Federal de Lavras (2005), de Minas Gerais, e experiência na área Agronômica e Florestal, com ênfase em Sistemas Agroflorestais, atuando principalmente nos programas de integração lavoura-pecuária-floresta, consórcios agroflorestais comerciais, sistemas silvipastoris, fitotecnia na Amazônia e manejo e fertilidade de solos.

De acordo com o pesquisador, que tem obras publicadas sobre o assunto, além de ajudar na retenção dos gases liberados pelos animais, a sombra de árvores traz conforto ao gado. “Em pastagens com poucas árvores, é comum se observar a aglomeração de animais sob a copa das árvores”, disse o pesquisador. “Mesmo o gado nelore, bem adaptado ao clima tropical, procura a sombra das árvores”, acrescentou.

“O gado não pasta sob o sol quente”, disse o médico veterinário Edvan Maciel, da Secretaria de Estado de Agricultura e Pecuária (Seap). Segundo ele, a falta de sombra nos pastos pode causar a queda de até 20% na produção do leite. Com a sombra, de acordo com o veterinário, o animal tem um ganho de peso de até 18%. Maciel, aliás, assessorou o secretário José Carlos Reis, da Seap, durante sua apresentação no Seminário de Avaliação do Programa ISA de Carbono, no qual o executivo anunciou que o governador Tião Viana é um dos principais incentivadores da implantação do sistema silvipastoris no Acre e lembrou que pelo menos três grandes pecuaristas locais, José Carlos Bronca, José Eduardo Moura Leite e Fernando Teixeira, vêm implantando com sucesso o sistema em suas propriedades.

“Já temos pelo menos umas cem hectares, nessas três propriedades, com esse sistema e que nos mostra que o caminho é este”, disse o engenheiro florestal autônomo Roberto Gonçalves, que assessora os pecuaristas com a experiência.

Fazenda do empresário José Eduardo Moura com a primeira experiência de pasto consorciado com Eucalipto - Foto: Tião Maia

Solução seria plantio de 225 ávores por cada 4 bois no campo

Ao falar de números durante a apresentação para os ambientalistas, o secretário José Reis disse que a bovinocultura no Acre, responsável por praticamente 90 de toda cadeia produtiva acreana, não pode parar por causa desses entraves. “Nós sabemos que toda a atividade produtiva é poluente. A bovinocultura também, por causa dos gases dos animais. O que precisamos fazer é encontrar meios de compensação”, disse o secretário. Segundo ele, pesquisas mostram que, para minorar os efeitos dos gases, seria necessário o plantio de 225 árvores de eucalipto para cada quatro boi no pasto.

José Reis também lembrou que esse tipo de consórcio se faz necessário porque em todo o mundo, principalmente no Brasil, é cada vez maior o número de consumidores preocupados com o aquecimento global e com o efeito estufa. Segundo ele, no último mês de junho, em Minas Gerais, chegou à mesa do consumidor os primeiros cortes de carne bovina de fazendas declaradas “área neutras de metano” – ou seja, gado criado no sistema silvipastoris, cujas propriedades já receberam o selo internacional da “Rainforest Aliance”, uma organização internacional fundada em 1987 e que tem pelo menos 17 mil membros em todo o mundo compromissados com a preservação de ecossistemas e da biodiversidade através de projetos ambientais. A organização é representada por um selo com a gravura de um sapinho verde.

Engenheiro florestal Roberto Gonçalves - Foto: Tião Maia

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