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Seminário internacional discute, no Acre, forma de explorar as riquezas do bambu

Escrito por Juracy Xangai em .

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PESQUISADORES, EMPRESÁRIOS E POLÍTICOS APRESENTAM IDEIAS PARA A EXPLORAÇÃO ECONÔMICA

A exposição de objetos decorativos e utilitários trabalhados em bambu atrai visitantes - Foto Juracy XangaiA exposição de objetos decorativos e utilitários trabalhados em bambu atrai visitantes - Foto Juracy Xangai

Um capim que cresceu demais, assim poderia ser definido o bambu com suas mais de mil espécies povoando 60% de todos os países do mundo. Ele é uma gramínea como é o milho, o arroz, a cana e as variedades de gramíneas onde pastejam os rebanhos, mas suas qualidades físicas tão úteis à construção civil e à agricultura, como também a rapidez com que se multiplica, fazem dele uma alternativa ecológica vantajosa para produzir tudo o que temos em madeira ainda retirada das florestas cada vez mais escassas.

Ao longo das palestras e debates que ocorreram no auditório do Teatro Universitário, da Universidade Federal do Acre (Ufac) durante o Seminário Internacional Sobre Bambu que se estendeu de 23 a 26 de outubro, ficam patentes as imensas possibilidades de uso do bambu, desde como substituto vantajoso da madeira até a extração de fibras e substâncias úteis à fabricação de alimentos, medicamentos e até equipamentos eletrônicos.

E o Acre se destaca por ter 45% da área de seu território coberto pelo que pode ser considerado o maior bambuzal do mundo. Essa boa notícia destoa na realidade frente à opinião geral de que os tabocais e bambuzais são uma praga a ser eliminada para dar espaço às plantações e ao gado.

Segundo os próprios pesquisadores, essa opinião se firma no fato de que o imenso potencial do bambu para a fabricação dos mais diversos produtos, que gerariam emprego e renda, simplesmente ainda não existe como um mercado efetivo. Situação agravada pela legislação ambiental, que tutora e criminaliza as atividades florestais de tal forma que impede seu desenvolvimento, especificamente no caso do bambu, cujas características renováveis naturais são muito diferentes das árvores em geral.

Seminário atraiu atenção dos interessados pelo bambu - Foto Juracy XangaiSeminário atraiu atenção dos interessados pelo bambu - Foto Juracy Xangai

Os pesquisadores e empresários lamentam que leis e normas específicas para o bambu não existem por falta de incentivo a pesquisas que produzam orientações técnicas que construiriam normas técnicas de uso. Também não existem leis que normatizem sua aplicação, ou políticas concretas para o desenvolvimento de uma dinâmica de mercado, onde o bambu seria fonte de riqueza para melhorar a vida das pessoas do campo e da cidade.

JORGE VIANA DESTACA PLANO DE DESENVOLVIMENTO

Esse fato brasileiro se multiplica por outros países, mas há bons exemplos muito significativos, como é o caso do Equador, que consegue, com apenas 15 mil hectares de bambu plantado, usá-lo para gerar 600 mil empregos e uma renda anual de 90 milhões de dólares, conforme destacou o senador Jorge Viana (PT-AC), apoiando-se na apresentação da pesquisadora Ximena Lodoño Pava, membro da Sociedade Colombiana do Bambu. Como taxonomista, Ximena é considerada a maior autoridade mundial em identificação de espécies de bambu.

Jorge Viana aproveitou para lembrar o lançamento do Plano Estadual de Desenvolvimento do Bambu. “Há anos, trabalhamos a valorização dos produtos florestais, que vão da madeira às essências. Por isso, o governo trabalha agora uma política para o bambu plantado que tem metas definidas para que as coisas aconteçam, pois entendemos que, para que as coisas aconteçam, é preciso haver um apoio inicial do Estado com ações efetivas”.

As poucas peças de artesanato decorativo e utilitário, formadas por uma cadeira, uma rede, além dos shampoos e sabonetes fabricados com substância de bambu pela farmacêutica Sílvia Basso, diretora técnica da Fundação de Tecnologia do Acre (Funtac) expressam sobretudo o quanto ainda há de espaço para aproveitar o imenso potencial que o bambu oferece para os negócios.

Bambu é um material alternativo renovável e sustentável - Foto Juracy XangaiBambu é um material alternativo renovável e sustentável - Foto Juracy Xangai

EMBRAPA COMANDA ESTUDOS DO USO E DE POTENCIALIDADES

Se existem milhares de espécies de bambu em 60% dos países do mundo, é o Brasil que tem o maior número delas, como os mais de 1.200 tipos de gigantes, como os existentes no Acre, com mais de 40 metros de altura. Também existem até variedades minis, que só alcançam alguns poucos centímetros do chão. Essa imensa variedade levou os pesquisadores da Embrapa a um trabalho de três anos coletando informações sobre as espécies de bambu, com bons resultados em estudos e pesquisas realizadas sobre seu uso e potencialidades.

Junto com Guilherme Wiedman, do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), Patrícia Drumond, da Embrapa, é a organizadora do livro e vídeo “Bambus do Brasil”, material que foi lançado oficialmente durante o seminário. “Reunimos uma grande variedade de trabalhos e pesquisas que vão da aplicação do bambu na cozinha à construção civil. É tanta coisa interessante que não coube tudo, apesar do livro ter ficado imenso, com 45 capítulos temáticos distribuídos em mais de 600 páginas. Quem quiser ter acesso a ele pode acessar o site da Embrapa na internet e baixar em PDF”.

O livro é mais um resultado da assinatura do memorando assinado pelos Ministérios da Ciência e Tecnologia do Brasil e da China para o “Desenvolvimento do Bambu”, que tem a Embrapa como entidade executora.

O senador Jorge Viana participou do seminário abrindo a primeira palestra sobre a importância da entrada no Brasil na Inbar e as perspectivas para o mercado do bambu. Viana destacou o potencial produtivo natural das variedades de bambu existentes no Acre e, durante o debate, foi questionado por um produtor de bambu de Goiás sobre os gargalos legais que dificultam a extração e comercialização do bambu no Brasil, bem como a inexistência de uma política de financiamento do tipo “Pronaf Bambu”.

Senador Jorge Viana com Perazzo, da Rede Brasileira do Bambu, e a colombiana Ximena, a rainha do bambu - Foto Juracy XangaiSenador Jorge Viana com Perazzo, da Rede Brasileira do Bambu, e a colombiana Ximena, a rainha do bambu - Foto Juracy Xangai

“Precisamos de uma solução no sistema jurídico para definir como se faz a exploração diferenciada do bambu com relação a outros produtos florestais, isso garantirá sua exploração econômica. A valorização do produto gera interesse por parte dos produtores e vai contribuir decisivamente para diminuir o desmatamento. O crédito é, sem dúvida, uma necessidade para estimular o cultivo. Aqui no Acre já fizemos isso com a castanha, que era considerada um estorvo para o fazendeiro, mas mudamos o modelo ambiental e sua valorização hoje faz dela uma riqueza”, respondeu o senador.

NA CHINA, SE USA BAMBU EM TUDO QUE A MADEIRA É USADA NO BRASIL

Normando Perazzo Barbosa, presidente da Rede Brasileira do Bambu (RBB), destacou que na China são produzidos em alta escala mais de cinco mil produtos de bambu, que vão desde utilitários domésticos, agrícolas, industriais e eletrônicos.

“Na construção civil, área em que atuo pessoalmente, o bambu é largamente utilizado na China para praticamente tudo em que aqui usamos madeira. No Brasil, isso ainda não acontece porque faltam leis e normas técnicas de uso em obras e construção, mas também por desconhecimento dos profissionais sobre a nobreza e as qualidades físicas deste material. Também não posso desconsiderar o preconceito dos profissionais da construção em relação aos materiais não industrializados, até porque nossas universidades não oferecem cursos que os capacitem para isso ”, assinalou Barbosa.

Apesar disso, Normando Perazzo destacou que, a nível mundial, o bambu surge como um material alternativo de alta qualidade, extremamente renovável e muito produtivo. “Mas sua utilização a curto prazo ainda exige cautela porque nos faltam plantações comerciais que garantam o abastecimento regular de matéria prima”, completou Barbosa.

Cosméticos desenvolvidos por Silvia Basso com a marca Bambu - Foto Juracy XangaiCosméticos desenvolvidos por Silvia Basso com a marca Bambu - Foto Juracy Xangai

O presidente da RBB frisou que os principais cultivos acontecem ainda no Estado de São Paulo, boa parte dela sobrevivendo mais da venda de brotos enviados à Ceasa para servir de alimento às famílias orientais. “O uso do bambu exige técnicas adequadas desde o plantio, a colheita e a fabricação de objetos. Por isso, é que estará acontecendo nos dias 11 e 12 de novembro, em Tatui, São Paulo, uma exposição de máquinas e ferramentas para trabalhar com bambu. Esse é o caminho para desenvolver a cultura do uso do bambu”, concluiu Barbosa.

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