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Qualificar o gado nelore e repovoar os rios com tartarugas

Escrito por Tião Maia em .

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Pecuarista Walmir Ribeiro se tornou o mais premiado criador de nelore e o maior criador de quelônios em cativeiro no Acre

Walmir Ribeiro defende o repovoamento das tartarugas nos rios acreanos - Foto DivulgaçãoWalmir Ribeiro defende o repovoamento das tartarugas nos rios acreanos - Foto Divulgação

Profissional do serviço público – foi deputado estadual e é, desde 1987, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, o atual presidente do TCE, Walmir Gomes Ribeiro, acreano de Brasiléia, filho do ex-seringueiro e ex-agricultor Lauro Gomes Ribeiro, já falecido, cresceu, em meio a 11 irmãos, como um daqueles meninos que brincavam no maior quintal do mundo – a Amazônia e sua vastidão de floresta.

Mas, longe das brincadeiras, ao entrar na floresta, seus olhos já estavam voltados para os animais, que pudesse abater e levar para casa por absoluta necessidade de alimentar o restante da família com proteína animal. Nesta caçada pela sobrevivência, quem acabava levando a pior era o jabuti, animal de fácil captura no intestino daquelas florestas.

Adulto, Walmir Gomes Ribeiro conservou os hábitos do interior e da criação de animais. Além de tartarugas, que já chegam a um plantel de pelo menos 200 mil animais, ele é um dos maiores criadores de gado nelore da região. Se não é o maior, é o mais premiado entre os criadores pela qualidade dos seus animais nas feiras agropecuárias das quais participa.

Gomes Ribeiro elogia as iniciativas do governo do Estado para a melhoria genética do gado acreano, um trabalho que vem sendo executado pela Secretaria de Agricultura e Pecuária. É a melhoria da genética do gado que permite a alguns fazendeiros terem em seu plantel touros como “Fajardo”, de uma fazenda do interior de São Paulo, falecido em 2009, cujo valor era estimado em no mínimo R$ 100 milhões.

Tartarugas da Amazônia são criadas em cativeiro e se reproduzem após 12 anos - Foto Gleilson Miranda, Secom-ACTartarugas da Amazônia são criadas em cativeiro e se reproduzem após 12 anos - Foto Gleilson Miranda, Secom-AC

Como é que o senhor avalia o trabalho do governo e dos pecuaristas de melhorar a qualidade genética do rebanho do Acre?
Vejo tudo isso com muito otimismo. Acho que o melhoramento genético, principalmente do Nelore, que é o gado que eu crio, está muito bom e não deve nada a nenhum estado da federação brasileira. Percebo que estamos muito equilibrados em relação ao restante do país e isso é mostrado em todas as palestras que participamos sobre o tema. É uma questão muito difícil essa da genética, mas aqui no Acre nós estamos conseguindo avançar.

O senhor poderia dar um exemplo desta dificuldade de trabalhar na área?
Pegue o exemplo do touro “Fajardo”. Este animal, falecido em 2009, viveu por 18 anos, mais de 10 deles na fazenda CRV Lagoa, em Sertãozinho, interior de São Paulo. Era recordista brasileiro de produção e comercialização de doses de sêmen. Tinha números impressionantes, pois produziu mais de 460 mil doses de sêmen, entre convencional e sexado, mais de 250 mil filhos, um recorde nacional. O reprodutor construiu uma trajetória vitoriosa em venda de sêmen, com progênie espalhada por todo o País, e nas mais disputadas pistas de julgamento.

Esse touro foi muito premiado?
Entre outros títulos, o reprodutor Fajardo foi Grande Campeão da Expoinel, em 1994; Melhor Macho Jovem (Medalha de Ouro) no ranking da ACNB em 1993/1994; e bi-campeão como Melhor Reprodutor Nelore ACNB 1997/1998 e 1998/1999. Também é pai das grandes matriarcas da atualidade, e, além disso, foi o touro Campeão Palheta de Ouro da CRV Lagoa e ganhou o troféu quando alcançou 250 mil doses produzidas, em 2002. Pois os donos do Fajardo tentaram reproduzir um touro igual a ele, utilizando inclusive a mesma vaca, e com o mesmo sêmem do pai do “Fajardo”, que se chamava “Visual”, um touro que veio da Índia, e depois da reprodução de mais de mil exemplares, chegou-se à conclusão de que nenhum dos filhotes era igual ao “Fajardo”. Pois aqui no Acre já estamos produzindo animais à altura do Fajardo.

Hoje temos um plantel de mais de 200 mil tartarugas, pelo menos 80 mil delas em fase de reprodução”

Um touro como esse seria avaliado em quanto?
Sinceramente, o valor é muito alto. Um touro como o “Fajardo” pode chegar a R$ 100 milhões, porque é um animal que pode chegar a centenas de milhares de filhos do mesmo porte dele.

O rebanho do Acre poderá chegar a um touro com este valor?
Chegaremos, muito em breve chegaremos. Arrisco a dizer que já podemos ter um touro igual ao “Fajardo” porque o nosso rebanho Nelore é gado de primeira linha, capaz de disputar espaço em qualquer parte do mundo e do Brasil.

Descendente de Fajardo, touro Orgulho pode chegar a R$ 100 milhões, calcula Walmir Ribeiro - Foto Gleilson Miranda, Secom-ACDescendente de Fajardo, touro Orgulho pode chegar a R$ 100 milhões, calcula Walmir Ribeiro - Foto Gleilson Miranda, Secom-AC

O senhor já recebeu prêmio pelo gado além das fronteiras do Acre?
Não. Nós nunca saímos da região. Nós nos preocupamos primeiro com o Acre. Nos últimos dez anos temos aproveitado os espaços de exposição para mostrarmos e buscarmos a excelência do nosso gado. Isso fez com que, nos últimos oito anos, fôssemos premiados como o melhor criador, o melhor expositor. Isso nos permite uma experiência grande para falarmos sobre a criação da raça Nelore. Mas nós temos também experiência para falarmos sobre a criação de tartarugas e de peixes.

“O lado de criador nasceu comigo”, diz Walmir Ribeiro

Quando foi que despertou no senhor essa veia para a criação de animais, tanto de gado como de tartarugas, da quais o senhor seria o maior criador do Acre?
O lado de criador não foi despertado em mim. Ele nasceu comigo. Eu sou filho de um agricultor de Brasiléia, lá no Alto Acre. Meu pai, Lauro Gomes Ribeiro, era um ex-seringueiro, que criou 12 filhos na base do trabalho, depois da seringa, na agricultura. De nós todos, pelo menos 70% fomos seringueiros, mas a gente criava animais junto com o cultivo do feijão, do arroz, da mandioca, do milho. Lá em Brasiléia, nossa família fez realmente um trabalho muito grande neste sentido e eu me apaixonei pelo que fazíamos e trouxe para a minha vida além das atividades públicas. Fazia muito tempo que ouvia falar na criação de tartarugas em cativeiro. Eu não conhecia a técnica mas iniciei a criação com mais de mil animais, com a ajuda do Júlio Rezende (engenheiro de pesca do Ibama, no Acre) e hoje temos um plantel de mais de 200 mil tartarugas.

A criação desses animais se destina ao abate?
Não, o meu foco de criar tartaruga é o de fazer repovoamento desses animais nos nossos rios, porque elas estão praticamente extintas nos nossos rios. Infelizmente, as tartarugas dos nossos rios acabaram.

Acabou por quê? Causas naturais ou pesca predatória?
Pesca predatória, infelizmente. Trata-se de um animal que não é muito difícil de ser capturado. Imagine que o pessoal pega uma piaba nos rios, como não iria pegar um animal que chega a pesar até 70 quilos na fase adulta? Por isso, pegavam de forma aleatória, de forma exagerada. Isso permitiu a pesca predatória e a quase completa extinção desses animais na natureza. E hoje nós não podemos fazer repovoamento. A não ser que pegássemos um animal desses na natureza, num ambiente natural e os órgãos competentes fizessem uma análise criteriosa para saber se é da mesma família das tartarugas com a qual você quer fazer o repovoamento. Isso nós não podemos mais fazer porque não temos mais tartarugas no ambiente natural. Isso faz com que tenhamos nos nossos criatórios mais de 200 mil animais e não podemos levá-los aos rios.

Qual a diferença da tartaruga para o jabuti?
Grande, muito grande. Primeiro a tartaruga é um animal aquático. Tudo é da mesma espécie, do Quelônio, mas têm diferenças. Temos mais de 300 espécies de quelônios e aqui estamos falando de duas espécies, a tartaruga da Amazônia e o jabuti. Mas nós temos também o tracajá e outras espécies.

“Meu sonho seria povoar os nossos rios com as tartarugas. Começaria pelas cabeceiras do Alto Acre”

Nós corremos o risco de termos também extinto o jabuti, esse que conhecemos tão bem?
Eu acredito que não porque a conscientização de preservação da espécie está muito maior que no passado. A repressão também. Mas, eu diria que é a conscientização. Hoje, os nossos filhos e nossos netos não querem mais comer jabuti. No meu tempo, a gente entrava na mata já com os olhos bem abertos para ver se encontrávamos um jabuti para garantir a refeição da família, dos vizinhos e dos amigos. Era uma questão de sobrevivência, de necessidade até. Hoje, o panorama é outro, a vida é outra. Então, não corremos o risco com o jabuti nem tampouco com a tartaruga. Ela deu uma boa respirada. Está fora de perigo.

Walmir presenteia governador Tião Viana com livro sobre sua experiência de criar quelônios no Acre - Foto Gleilson Miranda, Secom-ACWalmir presenteia governador Tião Viana com livro sobre sua experiência de criar quelônios no Acre - Foto Gleilson Miranda, Secom-AC

E quando é que o senhor pretende começar o trabalho de repovoamento dos rios com tartarugas, se é que vai poder fazer?
Eu começaria pelas cabeceiras do rio Acre, pela minha região, lá no Alto Acre. Esta era a minha intenção desde início do projeto. Mas, hoje, sinceramente, já não tenho mais a mesma expectativa de fazer este repovoamento porque não temos a questão legal para a atividade. Falta a autorização. O Ibama não a concede e, automaticamente, o que deverá terminar sendo feito é um abatedouro, o que é uma pena, porque um animal desses, na natureza, chega há levar 50 anos para fazer a primeira reprodução. No criatório, ela faz reprodução a partir de 12 anos. Desse plantel de 200 mil, nós já temos, eu imagino, um total de pelo menos 80 mil tartarugas em fase de reprodução. Esses animais têm que ser abatidos porque existe uma lei proibindo que eles sejam soltos na natureza. O que posso dizer é que já se vão pelo menos 2 anos na criação de tartarugas e isso está sempre aumentando, mas chega o momento em que a gente se ver obrigado a tomar uma decisão porque o projeto é muito caro.

Mas é uma carne muito apreciada pela gastronomia, inclusive internacional. O senhor já está vendendo para algum mercado?
Não, não estou vendendo porque se, eu for vender, teria que fazer um abatedouro e obedecer a uma série de exigências legais. Mas existe trabalho do próprio governo do Estado que nos incentiva em relação isso. Primeiro, em fazermos o repovoamento, como era nosso projeto inicial. O segundo seria o próprio Estado fazer um abatedouro de tartarugas, junto com um abatedouro de peixe. Estou aguardando, mas se não houver outra forma, vamos pelo lado do abate mesmo. Estou pensando.

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