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Povo Ashaninka cuida do meio ambiente como cuida da vida

Escrito por Tião Maia em .

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Francisco Piyãko debita prêmios globais à preservação e o respeito que o seu povo tem com a floresta amazônica

Francisco Pyanko é líder do povo indígena Ashaninka do rio Amônia, no Acre - Foto Secom-ACFrancisco Pyanko é líder do povo indígena Ashaninka do rio Amônia, no Acre - Foto Secom-AC

Filho mais velho do cacique Antônio Piyãko (lê-se, Pianko), numa família com sete irmãos (cinco homens e duas mulheres), que dirige a Associação Ashaninka do Rio Amônia (Apiwtxa), em Marechal Thaumaturgo, no Alto Juruá, interior do Acre, Francisco Piyãko, aos 49 anos, é uma das maiores lideranças do movimento indígena do país.

Foi assessor especial do governo do Acre para assuntos indígenas na administração do então governador Jorge Viana e agora, mesmo fora do setor público, continua atuando na organização dos povos indígenas do Rio Juruá e é muito procurado por lideranças de todo o país quando é necessário debater a sempre delicada situação dos índios brasileiros.

De tanto viajar ao redor do mundo defendendo as causas indígenas, seu passaporte está cheio de carimbos. Em outubro, por exemplo, ao lado irmão Benke, recebeu, em Nova York (EUA), o Prêmio Equatorial da Organização das Nações Unidas (ONU) como reconhecimento pelas ações desenvolvidas em defesa da floresta e dos povos tradicionais. A associação concorreu com mais de 800 candidaturas de 120 países.

Festa na aldeia Apiwtxa comandada pelos tambores dos Ashaninka - Foto Frederico LoboFesta na aldeia Apiwtxa comandada pelos tambores dos Ashaninka - Foto Frederico Lobo

Francisco está sendo preparado para ser o cacique de seu povo e, na entrevista a seguir, fala das conquistas obtidas pelos Ashaninka, cuja cultura e modo de agir em relação à preservação do meio ambiente, replantando árvores e devolvendo à natureza filhotes de animais abatidos para a alimentação da comunidade, acaba de receber homenagens no Memorial da América Latina, em São Paulo. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O que representa para o seu povo o recebimento de prêmios no exterior e homenagens, como a que receberam em outubro no Memorial da América Latina, em São Paulo?
Nós trabalhamos sempre sem competir com quem quer que seja. Por isso, qualquer homenagem não tem impacto internamente. Os prêmios e as homenagens apenas fortalecem o nosso jeito tradicional de viver na floresta.

“Fazemos tudo de forma manejada na nossa terra”

Qual é a base da dieta de seu povo que chamou a atenção dos chefs na homenagem ocorrida no Memorial da América Latina?
Na nossa dieta alimentar, temos variedades de batatas, bananas, milhos e frutas, como a pupunha e outras. Temos uma variedade de frutas da floresta que não dá para listar aqui porque são poucas conhecidas pelos brancos e algumas nem são. Temos também muita proteína animal, como peixes e animais silvestres, incluindo aves e muitas larvas, caranguejo, caramujos, rãs (sapos) e muitos outros, incluindo até formigas.

Governador Tião Viana comemora na aldeia os 20 anos de demarcação da terra Ashaninka - Foto Sérgio Vale, Secom-ACGovernador Tião Viana comemora na aldeia os 20 anos de demarcação da terra Ashaninka - Foto Sérgio Vale, Secom-AC

A captura dos animais e de aves não causa desequilíbrio ao meio ambiente?
Tudo é feito de forma manejada. Os animais são caçados com diferentes técnicas e só tiramos da natureza aquilo que precisamos e sempre ajudamos a natureza a se recompor quando ela precisa. Um exemplo é o manejo de tracajá. Acabamos de devolver aos rios mais de 10 mil filhotes, principalmente para o nosso rio Amônia. Temos áreas de reprodução de todos os animais que abatemos, sempre respeitando o tempo de reprodução para nunca nos faltar alimento. Desequilíbrio poderia haver se nós não tivéssemos cuidando do ambiente, ao contrário do que fazem os invasores, que só tiram o que a natureza oferece para vender e ganhar dinheiro. Os invasores agem assim porque estão de passagem. Ao contrário deles, nós agimos de modo a preservar porque ali é a nossa casa. Todos sabem da nossa luta para preservar.

Mundo debate o que os Ashaninka já fazem naturalmente

E o prêmio recebido da ONU em Nova York, qual o significado para a luta e a organização de vocês?
O Prêmio Equatorial concedido pela ONU mostra o que estamos fazendo concretamente sem seguir orientação de fora. O que fazemos é da cultura Ashaninka. O que o mundo está debatendo como uma novidade é, para nós, uma relação natural que é de cuidar do meio ambiente com o mesmo jeito que cuidamos das nossas vidas. O mundo lá fora (do Brasil) conhece essa forma muito mais que nossos vizinhos, o que é uma pena.

Viver na fronteira com o Peru continua sendo fator de risco dos predadores peruanos invadirem suas terras?
De fato, já tivemos problemas com os invasores. Mas aos poucos fomos acertando na forma de lidar com eles. Os problemas de fronteira estamos combatendo com a nossa organização e permanente vigilância. Já conseguimos e podemos impedir invasões e isso nós mostramos como fazer contra madeireiros brasileiros e peruanos. Sobre a legislação, o Brasil poderia não ter problema, mas temos problemas em relação aos povos indígenas na Amazônia, mesmo estando longe da fronteira.

Francisco Pyanko reunido com caciques de aldeias dos índios matsés, no Amazonas - Foto Lucas BonoloFrancisco Pyanko reunido com caciques de aldeias dos índios matsés, no Amazonas - Foto Lucas Bonolo

Quantos indivíduos formam o seu povo e qual a origem de vocês?
Hoje, somos mais de mil no Peru e três mil pelo menos aqui no Brasil. Sobre a origem é muito difícil afirmar. A única coisa que sabemos é que, antes de chegarem aqui nesta região, os espanhóis e os portugueses, nossos ancestrais já estavam aqui, como outros povos também. Nosso povo não se confunde com ninguém. Temos nossa identidade, como qualquer outro povo, mas temos uma cultura única.

Conquista da prefeitura é reconhecimento do trabalho

Seu irmão Isaac eleito prefeito do município de Marechal Thaumaturgo. O que representa isso para vocês?
A eleição dele é vista por nós como mais um reconhecimento do nosso trabalho. Desta vez, do povo de Thaumaturgo, que resolveu reconhecer isso. Houve vários outros candidatos, mas foi um Ashaninka escolhido a ocupar o cargo.

Qual a avaliação que você faz da política indígena do governo Temer?
O governo Temer está totalmente desatualizado em relação ao Século XXI e está sendo sustentado por um grupo político que disfarçava e agora passou a mostrar a cara sobre como trata o povo brasileiro, incluindo brancos, índios, negros etc. É um retrocesso e, na nossa avaliação quanto à política indígena, a nota é zero.

Povo ashaninka se veste com suas kusmas coloridas - Foto ApiwtxaPovo ashaninka se veste com suas kusmas coloridas - Foto Apiwtxa

Você foi assessor de assuntos indígenas no governo Jorge Viana. Houve avanços para os índios nos governos da Frente Popular?
Só não reconhece quem não quer. Foram mudanças estruturais, com o governo rompendo com vários vícios que deixaram sequelas nos índios até hoje. Claro que ainda há erros, mas se a gente botar na balança, houve mais acertos do que erros. Como secretário, fui testemunha disso e estou consciente de que ajudei neste processo muito importante para os indígenas na autoafirmação dos povos, com suas identidades em seus territórios tradicionais.

Como é esse negócio do supermercado ecológico implantado pelo prefeito Ashaninka lá em Marechal Thaumaturgo, onde a população pobre pode trocar lixo por alimentos?
A ideia do supermercado ecológico é uma estratégia para chamar a atenção para os cuidados com o meio ambiente. Poucos em Marechal Thaumaturgo sabem do problema do lixo. Com a troca, aos poucos vamos tentando criar uma consciência ambiental. Ainda falta muito para mudar a realidade, mas não ficamos de braços cruzados. Em muito lugar do mundo funciona este sistema de coleta e este é um debate global.

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