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José Reis: Acre avança forte na economia rural

Escrito por Tião Maia em .

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Ele era um discreto assessor do então senador Tião Viana, nos seus 12 anos como congressista. Com a eleição de Tião Viana para o governo do Acre, foi levado à condição de secretário de Estado de Pequenos Negócios, uma pasta criada para movimentar uma economia invisível, aquela em que estão envolvidas pessoas jamais vistas numa instituição bancária ou em outros setores onde o assunto é crédito.

O que parecia um desafio para um bacharel em Direito e profissional da área de segurança pública, capacitou-o ao ponto de, no segundo mandato, o governador convidá-lo para gerir uma das secretarias mais importantes de qualquer estrutura governamental: a de Agricultura e Pecuária (Seap). Em entrevista concedida ao Expresso Amazônia, José Carlos dos Reis fala da experiência de gerir a Seap e dos desafios de buscar criar no Acre uma nova classe média rural, concretizando uma das promessas de campanha do governador Tião Viana. A seguir, a entrevista.

José Carlos Reis, Secretario de Agricultura e Pecuária - Foto: Alexandre CarvalhoJosé Carlos Reis, Secretario de Agricultura e Pecuária - Foto: Alexandre Carvalho

EA: Secretário, como está a economia rural do Acre hoje?

Reis: ”Hoje, nós temos um faturamento anual da economia rural em torno de R$ 1,5 bilhão, segundo estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Segundo o estudo, 59% desse valor vem da pecuária e os outros 41 por cento da agricultura.’’ ”

EA: Qual a tendência que temos hoje para ampliarmos esse faturamento?

Reis: ”O caminho é avançar sobre as áreas degradadas, pois temos muitas delas no estado, com a pecuária passando a se qualificar e se tornar mais técnica ainda, colocando mais animais por hectare, como demonstra ser possível as experiências que demonstram a viabilidade do adensamento do setor. Ainda na pecuária, devemos abater os animais com peso ideal no menor prazo possível. A ideia é encurtar o tempo e a escala de matança, proporcionando mais renda ao produtor.”

EA: E na área da agricultura?

Reis: ”Também temos grandes avanços na agricultura. Nosso maior desafio é produzir grãos, principalmente milho, pois precisamos abastecer as agroindústrias que foram e estão sendo criadas e estimuladas pelo governo do Estado. As agroindústrias, principalmente as de rações, precisam de milho porque ele é a base da ração. Temos de admitir que não temos ainda esse milho em escala suficiente para atender à nossa demanda, que precisa ser atendida com o milho de Mato Grosso. Ainda precisamos produzir no Acre no mínimo 20 mil hectares de milho para atingir a autossuficiência.’’

EA: Esse plantio equivale a quantas toneladas?

Reis: ”Precisaríamos produzir algo em torno de 100 mil toneladas de milho por safra para abastecer o nosso mercado interno. Hoje, nós estamos produzindo em torno de 40 mil toneladas no máximo. Então, a gente precisa mais do que duplicar a nossa produção de grãos, de milho. Isso só vai ocorrer quando conseguirmos entrar nas áreas degradadas, porque temos muitas áreas que precisam ser recuperadas para termos, enfim, a integração entre a lavoura e a pecuária. O governo federal lançou o plano ABC, que significa a Agricultura de Baixo Carbono. A orientação do nosso governador Tião Viana é que concentremos esforços em cima das áreas degradadas para garantirmos produção sem desmatamento. Isso só será possível com a integração lavoura-pecuária.”

EA: Que tamanho é essa área degradada no estado?

Reis: ”Temos estudos que nos mostram que passamos de mais de um milhão de hectares de áreas degradadas no Acre. Pelo menos 300 mil áreas são de capoeira e o restante é de pasto que precisa ser melhorado. Pastagem que há muitos anos está sendo explorada e que não rende praticamente nada ao produtor, porque já não alimenta o gado, pois não houve, ao longo do tempo, uma reparação de calcário e muito menos de adubo. E sabemos que a terra vai se exaurindo com o tempo. São terras de muitos pecuaristas que chegaram ao Acre lá pela década de 70 e começaram a ocupar as terras sem nenhum benefício. A verdade é que, no Acre, nós temos terras muito boas. E não estou falando do ponto de vista físico, mas o fato é que, na natureza, tudo se esgota. E isso precisa ser corrigido. O que a gente, enquanto governo, quer fazer é que os pecuaristas entendam que o capim também é lavoura.”

Reis em reunião na SEAP - Foto: Alexandre CarvalhoReis em reunião na SEAP - Foto: Alexandre Carvalho

Fundo de investidores pode recuperar áreas degradadas

EA: Mostramos em reportagem que o cientista Moacyr Corsi está ensinando a ampliar a produtividade da pecuária acreana, mas há, segundo ele, outros gargalos nesta pecuária. Que gargalos seriam esses?

Reis: ”Na minha avaliação, o maior gargalo nesta área diz respeito ao calcário, que chega aqui a um custo muito alto, pois vem de longe. O presidente da Federação da Agricultura do Acre, Assuero Veronez,fala muito bem, ao discutir o assunto, sobre o que ele chama de “custo amazônico”. Ou seja, o Acre e a Amazônia como um todo teriam que ser subsidiados pelo governo federal em relação à produção. Ou seja, para melhorar seu solo, o Acre tem que importar calcário a preços muito altos. Penso que se faz necessário a criação de um fundo de investidores. Pegar dinheiro a fundo perdido lá fora para que a gente possa comprar calcário. Aí teríamos calcário subsidiado para que nossos produtores possam melhorar suas áreas degradadas, ajudando a gente a diminuir a pressão por novos desmatamentos. Ou seja, além de não fazer novos desmatamentos, nós ainda iríamos recuperar as áreas abertas. Isso justificaria o subsídio ao calcário para a nossa região.”

EA: Como está o Acre em relação às outras culturas?

Reis: ”Na área de grãos, o carro-chefe é o milho. Tem também a soja. Em relação à soja, a gente precisa amadurecer mais a questão. A técnica diz que precisamos de mais experiência para produzirmos soja. Já temos no Acre alguns produtores plantando e colhendo soja com grandes resultados. A questão do feijão e do arroz, o que posso dizer é que o arroz exige uma cadeia produtiva em relação a qual sempre vamos ter problema. Acho, sinceramente, que é inviável plantar arroz no Acre, principalmente por causa da concorrência. No Acre entra muito arroz, principalmente vindo do Sul do país. Além de muito arroz importado, o preço não compensa o investimento. O custo de produção passa a ser maior que o de mercado. Não podemos pensar em produzir arroz em escala comercial. É claro que o governo não pode se descuidar da produção de subsistência nos municípios mais isolados. Mas não vejo saída econômica para a produção, em escala econômica e comercial, de algo cujo preço não compensa.”

EA: O senhor não acha então que o Acre já carece da implantação de um estudo de desenvolvimento agrícola para se concluir o que deve ou não produzir aqui?

Reis: ”Posso garantir que estudos nesse sentido já estão bem adiantados, com a Embrapa e com os demais setores de produção do nosso Estado. Estamos fazendo esse mapeamento. O café é um bom exemplo disso. A Embrapa já tem estudo nos mostrando onde há, no Acre, o melhor solo para o plantio do café. Com este mapa de solo a gente vai fazer a política do setor funcionar melhor. A ideia é que o plano agrícola tem que definir os espaços. Onde houver esses espaços tem que ser definido o que deve ser plantado. Temos que saber o que queremos e o que podemos produzir.”

EA: Dê um exemplo disso?

Reis: ”Um bom exemplo é a melancia. Pouca gente sabe, mas o Acre hoje já é auto-suficiente na produção dessa fruta. Há um grupo de produtores da região da Baixa Verde, entre Rio Branco e Senador Guiomard, no sentido da estrada de Boca do Acre, que está produzindo muita melancia. Nós produzimos no ano passado mais de 300 mil toneladas de melancia ali. A produção atendeu o Acre e os vizinhos Rondônia e Amazonas.”

EA: O que está acontecendo que está faltando banana no Estado?

Reis: ”A banana está faltando no Acre porque está sendo exportada. É uma questão de mercado. Está indo para Rondônia e para o Amazonas. É uma questão comercial. Os produtores estão preferindo plantar a banana comprida porque ela resiste mais ao tempo de prateleira e exposição de mercado, como também é uma banana mais comercial. Os demais tipos de bananas, como a prata e a maçã passam a ser plantadas em escala menor. Nós também tivemos a grande cheia do ano passado, que destruiu muitos dos nossos bananais. De Assis Brasil a Porto Acre, no Vale do Acre, os bananais das margens do rio foram destruídos. Isso atingiu os produtores que abastecem os nossos mercados com as chamadas bananas-de-mesa. Só nos resta Plácido de Castro, Acrelândia e Tarauacá produzindo banana, mas a banana comprida, que está sendo exportada. A concorrência faz com que esta banana saia do Estado. Para nós, é um motivo bom porque faz com que não perca dinheiro. Para o consumidor e para o governo é um desafio porque a necessidade mostra que precisamos aumentar o plantio e garantir o abastecimento do mercado interno.”

Secretário José Reis é responsável pelas políticas públicas para a agropecuária do Acre – Foto Angela Peres/SecomSecretário José Reis é responsável pelas políticas públicas para a agropecuária do Acre – Foto Angela Peres/Secom

EA: Como está a formação da nova classe média rural no quinto ano do governo Tião Viana?

Reis: ”Os passos para a formação da nova classe média rural do Acre já foram dados. Um exemplo é a cadeia do peixe, cuja produção já está indo para os grandes supermercados do Centro-Sul. Isso é motivo de orgulho porque estamos falando de uma cadeia de produção que foi toda desenhada, desde os tanques, o centro de alevinos, a fábrica de ração e o frigorífico, envolvendo pequenos, médios e grandes produtores. Esta cadeia está pronta. A cadeia da bovinocultura também está pronta. Já exportamos muita carne para os grandes centros do país. Mas temos desafios como o da banana. O Acre está acordando para a importância do açaí. O açaí do Acre é de excelente qualidade e de excelente rendimento para quem o produz. Mas acho que as políticas públicas do governo Tião Viana vão ao encontro disso e reconheço que precisamos avançar em outros setores, como o do crédito rural. Os bancos têm dinheiro, mas exigem muito do produtor, por questões burocráticas, para liberar o crédito e isso precisa ser vencido por todos: pelo governo, pela bancada federal, pela sociedade civil e todos os demais setores interessados na melhoria da nossa economia rural.”, Finaliza.

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