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Elson Martins: Saberes da ciência têm de dialogar com o conhecimento dos povos da floresta

Escrito por Tião Maia em .

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Não vai aqui nem na frase a seguir nenhum favor ou elogio barato: ele é o mais experiente jornalista em atuação no Acre. Aos 76 anos de idade, Elson Martins da Silveira, acreano de Sena Madureira, nascido num seringal às margens do rio Yaco, não é apenas um repórter atento. É uma autêntica testemunha viva da história do Acre em mais de 50 anos de ininterrupta atuação profissional. Foi um dos primeiros repórteres a denunciar ao mundo os conflitos travados no intestino das florestas acreanas quando a luta pela posse da terra, na década de 70, opôs índios, seringueiros e pecuaristas. Como alguém que viveu a longa noite que se abateu sobre o Acre e que, em alguns momentos, manda dizer que a escuridão ainda não terminou, Elson Martins carrega uma tocha de claridade a partir da qual tem uma visão particular sobre o Acre e a Amazônia. Defende, por exemplo, que a região viva uma guerra – sim, uma guerra, mas de conhecimento, de ciência e tecnologia, uma guerra na qual os saberes da ciência propriamente dita dialoguem com o saber tradicional dos homens da floresta, índios e seringueiros. O jornalista conclui que, pela primeira vez, um governo demonstra preocupação com o futuro em relação à produção agrícola do Acre, algo que só está sendo possível porque, na sua avaliação, a administração Tião Viana é consequência de um plano que vem sendo didaticamente elaborado desde 1999, quando a Frente Popular do Acre chegou ao poder com o então governador Jorge Viana. Leia a seguir, os melhores trechos da entrevista.

Jornalista Tião Maia entrevista o colega Elson Martins para o jornal Expresso Amazônia – Foto: Sérgio Vale/SecomJornalista Tião Maia entrevista o colega Elson Martins para o jornal Expresso Amazônia – Foto: Sérgio Vale/Secom

Elson, você é jornalista no Acre desde 1976, quando de seu retorno ao Estado como repórter do jornal o Estado de São Paulo para cobrir os episódios de conflitos entre seringueiros e fazendeiros, conforme amplamente divulgado. Por certo, desde então você acompanha todos os governos que passaram pelo Acre, os quais sempre anunciaram a agricultura como prioridade e de concreto o que se vê é muito pouco em relação ao potencial agrícola. Como você, com sua experiência, analisa isso?

Eu passei muito tempo fora do Acre. Saí daqui em 1958 e só voltei em 1976, já no governo Geraldo Mesquita. Até aí, só se falava em abertura de fazendas e desmatamentos. Eram momentos muito conturbados no Acre. Eu acho que o Geraldo Mesquita foi um governo que tentou se opor a isso e, em certa medida, fez aquilo que teria feito o governador José Augusto de Araújo (eleito em 1962 e deposto em 1964, com o golpe militar) tentaria fazer. Naquela época, a agricultura de subsistência já estava acontecendo porque, com a queda da borracha, os pequenos roçados eram quem salvavam e a aliviavam a barra das famílias nas florestas. Os seringueiros estavam se tornando autônomos (não havia mais aquela garantia do aviamento nos tempos promissores da borracha) porque os arrendatários e os seringalistas que ficaram, começaram a deixar que os seringueiros e suas famílias colocassem seus roçados de subsistência. Antes, com a seringa como a principal atividade econômica da região, os seringueiros eram proibidos pelos seringalistas de colocarem roçados. Seringueiro que transgredisse essas ordens, eram severamente punidos porque os seringalistas, que colocavam capazes para fiscalizar cada colocação, precisavam os seringueiros trabalhando focados apenas na seringa e que eles fossem reféns do aviamento das mercadorias para a subsistência junto aos barracões.

Mas, nas cidades, como isso se refletia?

As cidades iam crescendo e havia necessidade de um excedente do que era produzido nos seringais e também porque os seringueiros iam abandonando a floresta, se aproximando das cidades e buscando ter um meio de vida, o que redundou na criação das chamadas colônias, próximas às cidades. O que eu lembro, antes de sair do Acre, ainda no governo do Guiomard Santos, na época do Acre território, é que aquele governo se preocupou um tanto com isso. O município de Plácido de Castro, por exemplo, nasceu de uma tentativa do governo de Guiomard Santos de criar ali uma colônia de agricultores japoneses. Ele trouxe os japoneses e assentou-os ali. A região era uma vila japonesa – até as casas copiavam a arquitetura japonesa. Eles produziam verduras e legumes em grande quantidade. O problema é que a sociedade acreana, naquela época, não tinha o hábito de comer verduras e legumes, que não era mesmo um hábito dos seringais. Com isso, a verdura e os legumes produzidos se perdiam nos mercados por falta de compradores. Com os prejuízos, eles mesmos tomaram a iniciativa de abandonar o Acre e ir para Tomé Açu, no Pará, para plantar pimenta-do-reino. Lembro também que o governo Geraldo Mesquita chegou a ter um plano voltado para a agricultura e que chegou a instituir 1976 como o Ano Estadual da Agricultura. Mas, nesse período, as famílias das florestas estavam sendo expulsas pela frente da agropecuária, com todo seu arsenal e apoio do governo federal. De um lado, seringueiros e seringalistas endividados, e de outro, fazendeiros e fazendas cada vez fortes, em que as famílias eram expulsas, ameaçadas.

Sindicatos ajudaram a financiar os produtores

E como se deu o enfrentamento a isso?

A Contag (Confederação dos Trabalhadores na Agricultura) começou a criar sindicato de trabalhadores, para fortalecer um movimento de resistência ao avanço da pecuária. A orientação da Contag, para garantir a permanência dos trabalhadores em suas colocações, é que plantassem, abrissem seus roçados, para configurar a propriedade. O João Maia (ex-delegado da Contag e ex-deputado federal) recomendava que eles plantassem, por exemplo, banana, que é um plantio de resposta rápida. Foi bem nesse momento, do final de 75, começo de 76 e até 1979, que os conflitos aumentaram, e o governador Mesquita criou esses Naris (Núcleos de Apoio Rural Integrados) e os entregou ao comando do agrônomo José Fernandes do Rego, que era secretário de agricultura e vai ser vice-governador do governo seguinte, do Joaquim Macedo. Uma coisa que achei marcante nessa decisão do Mesquita foi que ele aproveitou a organização dos sindicatos para financiar os produtores. Mandou que os bancos liberassem empréstimos aos produtores apenas com o aval dos sindicatos, já que essas pessoas, na maioria ex-seringueiros, não tinham posses para oferecer como garantias aos bancos. Isso, ao que tudo indica, é um problema que perdura até hoje.

O Governo anuncia que há dinheiro para financiar a agricultura, inclusive os pequenos agricultores, mas eles reclamam que não têm acesso aos recursos porque os bancos insistem em exigir garantias, além de toda a burocracia. Você acha então que o caminho para seria solucionar o problema seria esse tomado pelo governador Mesquita?

Acho que foi uma coisa corajosa, mas, com o tempo, ele acabou perdendo o controle. Funcionou bem por um período, mas a pressão da pecuária acabou, a meu ver, por desarticular o programa. Também havia no campo a instalação dos projetos de assentamentos, que foram criados pela ditadura militar para aliviar a pressão no campo em estados do sul. Ao que parece, o governo federal trazia esses trabalhadores para cá oferecendo muitas vantagens e aqui abandonavam as pessoas à própria sorte. O primeiro desses casos foi o do assentamento “Pedro Peixoto” e até hoje a gente não sabe exatamente qual o resultado desses assentamentos em termos de agricultura. O que se sabe é que muitos desses assentamentos foram transformados em fazendas. Outro aspecto a considerar: os ambientalistas, os estudiosos da Amazônia sempre disseram que o solo da região não é apropriado à agricultura, pela vulnerabilidade.

Você acha então que é perda de tempo insistir nisso?

Não é isso. Há experiências exitosas de seringueiros que plantaram seringueiras dentro da floresta e elas acabaram crescendo e produzindo. Há também experiências dos índios no Juruá, com o plantio de um tipo de feijão chamado peruano, que é bonito e muito bom. Penso que há a necessidade de pesquisas para que desenvolvamos essa agricultura especial dentro da Amazônia. Acho que o momento é esse. Acho que é isso que começa a acontecer. A experiência executada pelo atual governador do Estado de aproveitar as áreas degradadas é algo interessante e de novo.

Jornalista Elson Martins é uma testemunha viva da história contemporânea do Acre - Foto: Sérgio Vale/SecomJornalista Elson Martins é uma testemunha viva da história contemporânea do Acre - Foto: Sérgio Vale/Secom

Acre está vivendo fase madura de seu planejamento

O que difere o governo de Tião Viana dos demais em relação à produção agrícola?

É que há um planejamento para o setor. Um planejamento que já em execução faz algum tempo, que começou desde que a Frente Popular do Acre chegou ao governo, em 1999. A gente percebe que tem havido muita organização em todos os setores, da agricultura em particular. Agora está acontecendo a fase madura desse planejamento.

O que você destacaria nesse modelo de produção idealizado pelo governador?

Eu não sou especialista nisso. Eu falo como repórter e cidadão acreano interessado em que as coisas dêem certo. Acho que, no atual Governo, há programas muito interessantes, que são essas cadeias produtivas sustentáveis. Há um jornalista na Amazônia que eu gosto muito e confio nele, que é o Lúcio Flávio Pinto, lá do Pará, que defende como solução para a Amazônia a guerra do conhecimento. Ele coloca que é preciso criar para a região a experiência de colonos-científicos. Ou seja, aqueles estudantes e professores que saíssem das universidades regionais, fossem para o campo produzir, aplicar suas experiências na prática e criar novos conceitos para a exploração e produção, trocando experiência com os produtores tradicionais. De certo modo, o que há de novo no governo de Tião Viana é que ele tenta aproveitar essas áreas degradadas e trabalhar esse conceito de sustentabilidade, até com a pecuária, aplicando ciência e tecnologia.

O Governo e seus aliados na área vêm anunciando a possibilidade de utilização do menor espaço de terra com a maior produção de animais. O que você acha disso?

Já ouvi falar que, com isso, já é possível criar até 23 bois num hectare, quando os conceitos anteriores e tradicionais era de no máximo 2 bois por hectare. Essa ação do peixe, que foi iniciada já no Governo Mesquita, mas que nunca havia sido levada avante como no governo atual, usa a ciência e a tecnologia para melhorar a produção. O governo Tião Viana está trabalhando com isso, um trabalho que inclui planejamento para levantar recursos para esses investimentos.

Propostas de Tião Viana vêm dando certo

Como você analisa essa lenga-lenga, principalmente difundida por setores da oposição, de que o Acre nada produz tem razão para continuar? Você acha que a saída para o Acre seria esse caminho que estamos trilhando ou teríamos que buscar outros meios?

Eu acho que o caminho é esse que começamos a trilhar agora. Acho que essas propostas do governador vêm dando certo e têm tudo para se reafirmar. Por exemplo: o bambu. Pesquisas recentemente anunciadas revelam que o Acre detém a segunda maior floresta de bambu do mundo. A primeira é a da China, que tem cinco milhões de hectares – a China toda – e o Acre tem pelo menos 4 milhões. Sem exagero, a gente pode comparar isso com mananciais de ouro. Por outro lado, a seringueira, que é a nossa tradição cultural, ela também não perdeu o valor. Tanto é que desde os tempos áureos da borracha até as décadas seguintes, os seringueiros nunca receberam mais do que 40 centavos por litro do látex e hoje recebem perto de R$ 8,00 perla mesma quantidade do produto.

Para Elson Martins, futuro do Acre será muito promissor porque se desenvolve com respeito ao meio ambiente – Foto: Sérgio Vale/SecomPara Elson Martins, futuro do Acre será muito promissor porque se desenvolve com respeito ao meio ambiente – Foto: Sérgio Vale/Secom

A castanha também continua como um dos grandes produtos da pauta de exportação do Acre?

É, sim, um dos nossos grandes produtos, cujo mercado, principalmente o do exterior, vem se expandindo. O Acre já domina a tecnologia de extração e produção de castanha sem as toxinas que impediam a livre circulação do produto no exterior. Produzimos muito, mas também já compramos castanha para beneficiar aqui. Agora temos também a produção do açaí. Penso que o Acre precisa avançar mais no estudo do açaí para aumentar sua exploração e produção. O Amapá, Estado onde vivi e conheço bem, pode ser um bom exemplo para o Acre. A cidade de Macapá (a Capital), que é do tamanho de Rio Branco, tem pelo menos mil amassadoras de açaí. Famílias que exploram o produto diariamente, sem intermediários. Acho que o Acre poderia seguir esse caminho porque nosso açaí é de excelente qualidade e o governo do Tião Viana acerta em cheio quando incentiva programas de plantio como atividade econômica capaz de gerar emprego e renda num futuro bem próximo.

Como você vê ou imagina o futuro do Acre, principalmente nesta área da produção agrícola?

Eu sou um otimista por natureza. Penso que se o que está sendo planejado desde lá atrás e que vive o auge de sua execução sobre a responsabilidade do governador Tião Viana não sofrer uma interrupção, o futuro do Acre será muito promissor porque somos um dos poucos estados brasileiros que busca o desenvolvimento com respeito ao meio ambiente, com respeito ao nosso patrimônio que são os recursos naturais. Tenho muita fé e esperança de que tudo o que conquistamos até aqui possa seguir adiante para o bem das nossas futuras gerações.

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