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Piratas do combustível ampliam o faroeste na Amazônia

Escrito por Romerito Aquino em . Publicado em Especiais

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Além do aumento dos desmates, narcotráfico, grilagens garimpagens, região é atacada por piratas, que roubam R$ 100 milhões em combustíveis e produtos da Zona Franca

Balsas transportando no rio Madeira mercadorias de Manaus para Porto Velho estão sendo assaltadas Foto Portos e Navios

Considerada detentora da maior, mais rica e mais importante floresta tropical do mundo, essencial para o equilíbrio climático de todo o planeta, a Amazônia nunca viveu um clima de faroeste tão grave como nos últimos tempos.

Com o desmatamento se ampliando, as grilagens crescendo, a biopirataria prosseguindo, os assassinatos de trabalhadores se multiplicando, a impunidade reinando, organizações não-governamentais e governos de países ricos indo embora da região, a grande floresta brasileira começa a viver outro drama que está deixando sem dormir boa parte de seus 20 milhões de habitantes.

Trata-se da ação acelerada de piratas, organizados em grandes, poderosas e bem armadas quadrilhas, que estão roubando combustíveis e outros produtos transportados pelos grandes rios para abastecer as cidades da região, principalmente do Pará, Amazonas, Rondônia e até o Acre, que também depende da navegação para se abastecer.

Segundo recente reportagem especial publicada pelo jornal O Estado de São Paulo, o roubo de carga nos rios dos estados amazônicos quadruplicou entre 2015 e 2016, chegando a representar prejuízos anuais da ordem de R$ 100 milhões para os comerciantes e os navegadores da região.

Carga de combustível roubada foi encontrada pela Polícia do Pará em Muaná - Foto Divulgação

Do total do roubo, os navegadores calculam que 70% são de combustível, que ao serem transportados pelos rios, acabam desviados pela ação dos piratas organizados, que usam equipamentos eletrônicos de comunicação para praticaram as tocaias nas embarcações nos locais mais isolados.

Segundo os navegadores, o alvo predileto dos piratas são embarcações que transportam, além do combustível, produtos eletrônicos adquiridos na Zona Franca de Manaus, que vão abastecer as cidades do Pará e de Rondônia, onde o combustível é repassado de forma clandestina principalmente para as áreas de garimpos.

O modus operandi dos piratas inclui rapidez, agilidade e a infraestrutura indispensável para transportar os produtos dos roubos. Usando barcos pequenos e rápidos e encapuzados, com luvas pretas e fortemente armados, eles cercam geralmente à noite as embarcações, formadas principalmente de balsas, amarram uma corda e sobem para prenderem as tripulações nas cabines.

Em seguida, os ladrões levam as cargas roubadas para barcos maiores, sempre ancorados próximos às regiões dos assaltos. Em quase todas as ocorrências, há também roubo de combustível dos tanques das embarcações. Na maioria dos casos, os piratas levam ainda todos os pertences das tripulações.

Assaltos quadruplicam entre os anos de 2015 e 2016

Draga e balsa de garimpo no rio Madeira próximo a Porto Velho - Foto Karla Mendes Estadão

Segundo a reportagem, o número de assaltos nos trechos entre Manaus (AM) e Belém (PA) e entre Manaus e Porto Velho (RO) quadruplicou de 50 em 2015 para mais de 200 no ano passado, de acordo com estimativa do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Aquaviários do Amazonas (Sintraqua).

Nos pontos mais críticos, as grandes empresas de transporte de carga só navegam acompanhadas de escolta armada. O Estreito de Breves, canal fluvial de acesso ao Arquipélago do Marajó, no Pará, é um dos trechos mais perigosos, pois a região é estratégica para o escoamento de diversos produtos.

Para atravessar o estreito, as embarcações precisam reduzir a velocidade. É quando os piratas, que estão em barcos mais rápidos, atacam. “Essa é a área vermelha. Nossa situação é horrorosa, pois a pirataria tem uma ligação muito forte com o tráfico internacional de drogas”, disse ao jornal paulista Eduardo Carvalho, presidente do Sindicato dos Armadores do Pará (Sindarpa).

Segundo a reportagem, o combustível é a mercadoria mais cobiçada pelos piratas que atacam na região. A principal rota de ataque é o rio Madeira, onde cerca de 400 embarcações trafegam por mês no trecho entre Manaus e Porto Velho, onde os transportadores estimam que ocorram atualmente 50% dos roubos de combustível da região amazônica.

Os rios e as cargas roubadas pelos piratas na Amazônia - Infográfico Estadão

“É uma carga fácil de desviar e vender, pois em todo local da Amazônia se consome combustível”, afirmou o empresário Claudomiro Carvalho Filho, vice-presidente do Sindicato das Empresas de Navegação Fluvial do Estado do Amazonas (Sindarma).

Um dos maiores influentes do Amazonas, o Madeira é o rio mais importante da região para o escoamento da produção, por onde passam cerca de 15 bilhões de toneladas de carga por ano. O transporte de grãos representa 6 bilhões de toneladas, enquanto o de combustível soma 3 bilhões de derivados de petróleo e diesel.

O Estadão assinala que próximo à cidade de Porto Velho, o roubo de combustível no rio Madeira alimenta sobretudo o garimpo ilegal. Estocado em tambores e galões, o combustível é vendido a garimpeiros ao longo do rio, que chegam a ocupar cerca de duas mil dragas e balsas de garimpo na época de seca do rio Madeira. Outro destino são postos de combustível ilegais situados ao longo dos rios.

(*) Com Karla Mendes, especial, de Porto Velho (RO), para o jornal O Estado de S. Paulo.

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