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Brasil discute, no Acre, saída para inferno das drogas e armas das fronteiras

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PROPOSTO POR TIÃO VIANA, ENCONTRO DISCUTE PLANO PARA ENFRENTAR GRAVES PROBLEMAS DO 2º MAIOR CONSUMIDOR DE COCAÍNA DO MUNDO

Brasil já subiu para o segundo maior consumidor de cocaína do mundo - Foto Polícia FederalBrasil já subiu para o segundo maior consumidor de cocaína do mundo - Foto Polícia Federal

Há cerca de sete anos, ao me reencontrar, no Congresso Nacional, com um antigo colega de profissão, um fotógrafo do jornal O Estado de São Paulo, este me disse que acabara de chegar da região amazonense de Tabatinga, na fronteira com a cidade colombiana de Letícia, e que um fato o deixará simplesmente estupefato.

Após trabalhar por três dias como motorista para a reportagem que o Estadão estava fazendo ali sobre as mais longínquas fronteiras brasileiras, o jovem de Tabatinga chegou para se despedir dos dois repórteres e, sem a menor cerimônia, ofereceu para eles um pequeno pacote contendo cocaína. “Ninguém vem para a Amazônia em vão. Vendo para vocês esse pacote de cocaína por 10 mil reais, em Manaus vocês podem revender por R$ 20 mil e em São Paulo ou no Rio de Janeiro podem pegar até R$ 100 mil”, disse o jovem aos repórteres. “Ficamos surpresos com a ousadia daquele rapaz”, confessou o colega.

Passou-se os últimos sete anos e o clima favorável à venda de drogas no Brasil pode ter facilmente se duplicado, triplicado ou quadruplicado, se forem levados em contas vários fatores constatados pelas autoridades policiais. Entre eles, o fato do Brasil ter emergido para a posição de segundo maior consumidor de cocaína do mundo – perdendo apenas para os Estados Unidos – e o volume de apreensão de drogas na cidade de Manaus, não muito distante da tríplice fronteira Brasil, Colômbia e Peru, ter aumentado nada menos que 1.324% entre os anos de 2011 e 2015. Na contabilidade policial, o aumento de apreensão de drogas é diretamente proporcional ao crescimento do tráfico.

Tião Viana foi quem provocou o encontro de governadores para discutir o combate ao narcotráfico nas fronteiras brasileiras - Foto Secom-ACTião Viana foi quem provocou o encontro de governadores para discutir o combate ao narcotráfico nas fronteiras brasileiras - Foto Secom-AC

É nesse clima de crescente tragédia grega, que desagrega as famílias, aumenta os genocídios, multiplica a violência urbana e incendeia as prisões brasileiras nas brigas entre as diversas facções criminosas espalhadas por todo o território nacional que os governadores de todo o Brasil, além das maiores autoridades dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, se reúnem nesta semana em Rio Branco (AC) para discutirem uma saída para o inferno que o disparado aumento do tráfico de drogas está provocando de Norte a Sul do país.

FORÇA –TAREFA PARA COMBATER OS CRIMES TRANSFRONTEIRIÇOS

Provocado pelo governador acreano Tião Viana, o evento do dia 27 (sexta-feira), na capital acreana, tem por nome oficial “Encontro de Governadores do Brasil pela Segurança Pública e Controle das Fronteiras – Narcotráfico, uma emergência nacional”. Do encontro, todos querem sair com a criação de um Plano Nacional de Segurança Pública e de uma Força-Tarefa de combate aos crimes transfronteiriços e de proteção da soberania do país. Entre eles, o tráfico de drogas e o contrabando de armas.

Além de discutirem a grande emergência nacional contra o narcotráfico, a partir das fronteiras com seus vizinhos sul-americanos, entre eles Bolívia, Peru e Colômbia, de onde sai, há décadas, a grande massa da cocaína que abastece o planeta, o Acre também sediará, no dia 26 (quinta-feira) o 16º Fórum de Governadores da Amazônia Legal, hoje a grande força tarefa sobre assuntos relacionados aos nove estados da região da maior floresta tropical do planeta.

Narcotraficantes contam até com hidroaviões para facilitar o tráfico de drogas - Foto DivulgaçãoNarcotraficantes contam até com hidroaviões para facilitar o tráfico de drogas - Foto Divulgação

Juntos, os governadores amazônicos vão continuar debatendo problemas comuns e políticas públicas que visam fortalecer o desenvolvimento da Amazônia, buscando mais apoio e ações do governo federal. O evento vai marcar principalmente uma discussão sobre os preparativos para a Conferência do Clima da ONU (COP23) e o funcionamento de um consórcio de investimentos para a região.

TIÃO VIANA: “NARCOTRÁFICO COMPROMETE FUTURAS GERAÇÕES”

“O mundo vive a mais grave crise ecológica da história das civilizações e vive a ameaça do narcotráfico comprometendo as futuras gerações. Estamos falando de mais de 60 mil mortes por ano no Brasil e um movimento financeiro sem tributação que circula trilhões de dólares”.

Foi o que disse na semana passada o médico Tião Viana, o governador anfitrião dos dois encontros, o que vai discutir o futuro das gerações diante do narcotráfico e o que vai promover nova reunião do Fórum dos Governadores amazônicos, que vai definir, desta vez, o funcionamento do Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável, que foi criado durante o 15º e último Fórum, ocorrido em Cuiabá (MT).

Os barcos dos narcotraficantes costumam ser mais modernos e bem mais rápidos do que os da Polícia - Foto DivulgaçãoOs barcos dos narcotraficantes costumam ser mais modernos e bem mais rápidos do que os da Polícia - Foto Divulgação

Participam deste novo Fórum amazônico, em Rio Branco, que também discutirá questões do meio ambiente, comunicação e turismo, os governadores, assessores e técnicos dos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.

Preocupado com o avanço da violência causada pelo crescente tráfico de drogas, em especial na Amazônia, o governador Tião Viana levanta, desde o início deste ano, a urgência de haver uma união nacional e efetiva contra o narcotráfico. Com a realização do evento na capital acreana, Viana propôs a ampliação do debate para o âmbito nacional e internacional.

Segundo o governador do estado mais ocidental do país e terra natal do sindicalista Chico Mendes, que despertou o mundo para as graves questões ambientais do planeta, há mais de suas décadas, o Brasil era o 101º país no consumo de drogas, hoje está em 2º lugar, perdendo apenas para os Estados Unidos, fato que torna mais urgente a questão do enfrentamento.

Polícia Civil do Acre também apreende drogas, armas, munições e dinheiro do tráfico - Foto G1Polícia Civil do Acre também apreende drogas, armas, munições e dinheiro do tráfico - Foto G1

“O pedido de prioridade nossa é a construção do Sistema Nacional de Segurança Pública, como temos o de saúde e o de educação, uma Força-Tarefa Nacional de combate ostensivo a droga contra os traficantes e proteção e fechamento das fronteiras, porque tudo ocorre a partir das fronteiras abertas”, destaca Tião Viana.

PODER ECONÔMICO DO NARCOTRÁFICO DIFICULTA COMBATE

E fronteiras abertas é o que não faltam nos estados da Amazônia brasileira. E uma das maiores no momento se encontra justamente na região de Tabatinga e Letícia, na fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru, onde reside o jovem que teve a audácia de oferecer uma boa quantidade de cocaína para jornalistas venderem no Centro-Sul do país.

Em entrevista concedida em março deste ano à Agência BBC-Brasil, o procurador de Justiça do Estado do Amazonas, Pedro Bezerra, definiu em seu gabinete os grandes e graves problemas provocados pelo narcotráfico internacional na América do Sul e a incapacidade das autoridades brasileiras de o combaterem na Amazônia.

O movimento é totalmente livre na divisa entre o Brasil e a Colômbia - Foto Felipe Souza, BBC-BrasilO movimento é totalmente livre na divisa entre o Brasil e a Colômbia - Foto Felipe Souza, BBC-Brasil

“Falta muito material humano e condições para esses soldados (do Exército, da Polícia Federal e de outras instituições) que dedicam sua vida para evitar esse tráfico. (Faltam) Condições para que possam atuar de forma eficiente, como materiais, lanchas, armamento, treinamento”, salientou Bezerra.

O procurador disse concordar com as falhas admitidas por agentes da Polícia Federal e ressaltou que o tráfico de drogas tem mais dinheiro e mais equipamentos. “Como eles (os traficantes) têm poder em termos de dinheiro, eles compram lanchas, hidroaviões. Nós temos limitações financeiras a nível de Estado e dependemos de uma certa burocracia”, assinala.

Por fim, o procurador de Justiça destaca, sem otimismo, a desvantagem das condições das forças policiais do país para darem fim ao narcotráfico na Amazônia. “Então, infelizmente as coisas se resolvem pela vontade do material humano de que nós dispomos. Estes agentes que fazem esse tipo de operação arriscando as próprias vidas”, concluiu o procurador de Justiça.

(*) Com Agência de Notícias do Acre.

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